Semicondutores: a corrida global por chips e o que o Brasil está construindo
A chamada corrida global por semicondutores deixou de ser um assunto restrito a analistas de mercado e passou a orientar decisões de política industrial em praticamente todos os países com pretensões tecnológicas. Estados Unidos, União Europeia, China, Coreia do Sul, Japão e Índia lançaram nos últimos anos programas bilionários para atrair fábricas de chips ou fortalecer sua produção doméstica, movidos pela percepção de que depender de poucos fornecedores concentrados, sobretudo em Taiwan, é um risco estratégico. O Brasil, historicamente importador de praticamente todo o chip que consome, entrou nessa conversa de forma mais concreta em 2026, com a regulamentação de um programa que promete reorganizar a política de incentivos ao setor no país.
A disputa global por capacidade de fabricação
A produção de semicondutores avançados está concentrada em pouquíssimas empresas, com destaque para a taiwanesa TSMC, a sul-coreana Samsung e a norte-americana Intel, que juntas dominam a fabricação de chips de ponta usados em processadores, GPUs e aceleradores de inteligência artificial. Essa concentração geográfica, somada às tensões comerciais entre Estados Unidos e China, levou vários governos a subsidiar pesadamente a construção de novas fábricas em seus próprios territórios, como os investimentos da TSMC no Arizona e da Samsung no Texas, além de programas legais como o CHIPS Act americano e o Chips Act europeu. O objetivo comum é reduzir a dependência de uma única região para um insumo considerado essencial tanto para a economia quanto para a segurança nacional.
O Programa Brasil Semicondutores e a nova regulamentação
No Brasil, a principal novidade do ano foi a regulamentação do Programa Brasil Semicondutores, também chamado de Brasil Semicon, instituído pela Lei nº 14.968, de 2024, que reformulou o antigo PADIS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores). Em julho de 2026, o governo federal publicou um decreto que regulamenta o novo programa e altera o decreto que disciplinava o PADIS desde 2021, unificando as regras dos dois instrumentos. Segundo informações divulgadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o programa prevê a destinação de recursos relevantes por ano para pesquisa e inovação nas cadeias de chips e eletroeletrônicos, com a Finep anunciando ainda linhas de crédito específicas para o setor.
Um dos pontos centrais da regulamentação é a ampliação do escopo de benefícios do PADIS, que deixam de cobrir apenas a fabricação de componentes e passam a contemplar também equipamentos, softwares, matérias-primas, serviços especializados, contratos de transferência de tecnologia e assistência técnica utilizados ao longo da cadeia produtiva. Na prática, isso amplia o universo de empresas que podem se beneficiar dos incentivos fiscais, indo além das poucas companhias que hoje fabricam fisicamente componentes eletrônicos no país.
O papel do BNDES e da Finep no financiamento do setor
A regulamentação também formalizou a autorização para que o BNDES e a Finep estruturem instrumentos de apoio financeiro voltados à instalação de novas fábricas, à ampliação de plantas industriais já existentes, à modernização tecnológica e à atualização de infraestrutura produtiva do setor de semicondutores. Esse desenho busca resolver um gargalo histórico do setor no Brasil: a dificuldade de atrair investimentos privados de grande porte para uma indústria que exige capital intensivo e ciclos de maturação longos, em um país que nunca abrigou uma fábrica de chips de ponta.
Vale destacar que o Brasil não fabrica, e não deve fabricar no curto prazo, semicondutores avançados dos nós tecnológicos mais recentes, usados em processadores de última geração e em aceleradores de inteligência artificial, um patamar tecnológico que hoje está concentrado em poucas fábricas no mundo e exige décadas de investimento acumulado para ser alcançado. A aposta do programa é mais modesta e realista: fortalecer etapas específicas da cadeia em que o país já tem alguma presença, como encapsulamento, testes, desenvolvimento de projetos (design) e produção de componentes menos sofisticados, além de estimular o ecossistema de startups e centros de pesquisa em microeletrônica.
Dependência de importação e os desafios que permanecem
Apesar do avanço regulatório, o Brasil segue extremamente dependente de importações de semicondutores, tanto de chips prontos quanto de equipamentos de fabricação, que são dominados por um punhado de empresas em poucos países. Essa dependência afeta desde a indústria automotiva, que já sofreu com desabastecimento de chips em anos anteriores, até o setor de eletrônicos de consumo e data centers voltados à computação em nuvem e à inteligência artificial. Construir uma fábrica de semicondutores de ponta exige investimentos bilionários, know-how tecnológico acumulado por décadas e uma cadeia de fornecedores que simplesmente não existe hoje no país, o que torna pouco realista, no horizonte visível, a produção doméstica de chips avançados.
Ainda assim, especialistas do setor avaliam que a estratégia de fortalecer nichos específicos da cadeia, somada a incentivos para atrair centros de design e pesquisa, pode posicionar o Brasil de forma mais relevante dentro da cadeia global de semicondutores, mesmo sem competir diretamente com Taiwan, Coreia do Sul ou Estados Unidos na fabricação de chips de última geração. O sucesso do Brasil Semicon dependerá, em boa medida, da capacidade de execução dos novos instrumentos de crédito e da atratividade regulatória do país frente a outras nações que também disputam os mesmos investimentos internacionais.