Ciberataques e ransomware no Brasil: o que os dados de 2026 mostram
O Brasil vive um momento delicado em cibersegurança. Diferentes relatórios divulgados ao longo de 2026 apontam para um cenário de ataques cada vez mais frequentes e mais bem organizados, com o país figurando entre os alvos preferidos de grupos de ransomware em escala global. Ao mesmo tempo, entidades como o CERT.br (Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil) reforçam que boa parte dos incidentes ainda poderia ser evitada com medidas básicas de segurança, hoje negligenciadas por empresas de todos os portes, de pequenas prestadoras de serviço a grandes corporações. Entender o que mudou recentemente ajuda a separar o alarmismo do risco real e mostra por que a cibersegurança deixou de ser pauta exclusiva dos departamentos de TI para se tornar um tema de governança e de continuidade do próprio negócio.
Ataques em alta: o que dizem os números
Levantamentos da Check Point Software mostram uma escalada constante ao longo do primeiro semestre de 2026. Em abril, organizações brasileiras sofreram, em média, milhares de tentativas de ciberataque por semana, um salto expressivo em relação ao mesmo mês de 2025 e bem acima da média global de ataques semanais por organização. Nos meses seguintes o volume oscilou, mas sempre se manteve consideravelmente acima do registrado um ano antes. Independentemente da oscilação mês a mês, a tendência de fundo é clara: o Brasil tem crescido em ritmo mais acelerado do que a média mundial em número de tentativas de ataque, e os setores de governo, serviços empresariais e educação aparecem de forma recorrente entre os mais visados por criminosos. Esse tipo de estatística não mede o sucesso dos ataques, mas o volume de tentativas bloqueadas ou detectadas, o que já é suficiente para indicar o tamanho do esforço ofensivo direcionado a redes brasileiras.
Ransomware: menos grupos, ataques mais profissionais
O cenário específico de ransomware segue a mesma lógica de agravamento, mas com uma mudança estrutural relevante: o mercado criminoso está mais concentrado. Relatórios de inteligência de ameaças apontam que os maiores grupos de ransomware concentraram a maioria das vítimas divulgadas publicamente no mundo em 2026, resultado de uma reorganização que produziu menos operações ativas, porém mais estruturadas e capazes de atacar em escala industrial, com infraestrutura própria e afiliados espalhados por diferentes países. Novos grupos assumiram a liderança global, ultrapassando nomes historicamente conhecidos como o LockBit, que já dominou rankings anteriores antes de sofrer ações policiais internacionais e hoje aparece em posição secundária. Para o Brasil, essa profissionalização teve efeito direto: o país entrou entre os mais atingidos por ransomware no início de 2026, concentrando uma fatia relevante das vítimas globais divulgadas, com destaque para os setores de serviços empresariais, bens e serviços de consumo e indústria de transformação.
O que o CERT.br recomenda às empresas
O CERT.br lançou um guia dedicado a ransomware, reunindo controles básicos de segurança que, segundo a entidade, ajudariam a barrar ou pelo menos detectar precocemente grande parte dos ataques em curso, um reconhecimento implícito de que muitos incidentes bem-sucedidos exploram falhas evitáveis, e não apenas vulnerabilidades sofisticadas de dia zero. Entre as recomendações que constam no material, destacam-se:
- manter backups offline, isolados da rede corporativa e testados periodicamente, já que backups acessíveis pela rede costumam ser os primeiros alvos dos atacantes;
- exigir autenticação multifator em acessos remotos, VPNs e contas administrativas;
- segmentar redes internas para limitar a movimentação lateral de um invasor que já comprometeu uma máquina;
- manter sistemas expostos à internet atualizados e corrigidos, fechando janelas de exploração conhecidas;
- elaborar e testar, na prática, planos de resposta a incidentes, em vez de mantê-los apenas como documentos formais.
O documento reforça que o ransomware deixou de ser um incidente técnico isolado para se tornar, em muitos casos, um evento que paralisa operações inteiras por dias ou semanas. Não por acaso, parte do mercado de seguros e as próprias empresas passaram a tratar esse tipo de ataque como um risco de continuidade de negócio, equivalente a um desastre operacional, e não apenas como um problema restrito à área de tecnologia.
O que muda daqui para frente
O aumento no volume de ataques e a profissionalização dos grupos de ransomware sugerem que 2026 deve consolidar uma tendência que já vinha se desenhando: cibersegurança tratada como investimento estratégico, e não como custo residual a ser cortado em momentos de aperto orçamentário. Para empresas brasileiras, de pequenas prestadoras de serviço a grandes corporações, isso significa revisar contratos de nuvem e fornecedores terceirizados, atualizar políticas de controle de acesso, investir em treinamento constante de funcionários contra phishing e engenharia social, e, principalmente, testar de fato os planos de contingência antes que um incidente real aconteça. Para o usuário comum, o recado também vale: senhas fracas, reaproveitadas entre serviços, e a ausência de autenticação em duas etapas continuam sendo portas de entrada relevantes para fraudes que, embora menores em escala, se somam ao quadro geral de insegurança digital no país. Os dados levantados ao longo de 2026 deixam claro que a pergunta não é mais "se" uma organização será alvo de um ataque, mas "quando" isso vai acontecer e o quanto ela estará preparada para reagir sem comprometer sua operação.